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SBBNews Entrevista:  Antonio Cláudio Tedesco (USP), por Luciana Malavolta (FCMSCSP)

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Prof. A.C. Tedesco

Antonio Cláudio Tedesco desenvolve pesquisas em Terapia Fotodinâmica, Fotobiologia e Engenharia Tecidual. É professor titular do Departameto de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nível 1B. Com graduação em Química e doutorado em Fotoquímica Orgânica pela USP (1992), tem pós-doutoramento (1993-1995) na Escola de Medicina de Harvard, Boston, USA em Fotobiologia e Fotomedicina e pós-doutoramento (2004-005) na Universidade Paris (Paris-V), Institut National de La Santé et de La Recherche Medicale em Engenharia Tecidual. Produziu cerca de 200 artigos em periódicos especializados, 440 trabalhos em anais de eventos, 85 conferências em seminários nacionais e internacionais, 18 produtos tecnológicos (6 registrados, 3 processos ou técnicas, 37 itens de produção técnica) e orientou 81 estudantes nas áreas de Biofísica, Química e Farmácia.

No XII Congresso da SBBN,  Tedesco participará no dia 10 de outubro da mesa redonda “Nanobiotecnologia, Biofotônica e Teranóstica: impacto em sistemas biológicos” com a palestra Nanocarreadores aplicados à terapia celular e tratamento de patologias. Foi entrevistado para o SBBNews pela Prof. Luciana Malavolta Quaglio, membro titular da SBBN, professora adjunta da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) e pesquisadora colaboradora do Instituto Israelita de Pesquisa Albert Einstein.

SBBNews: Em 2017, o tema do Congresso da SBBN é “Integração de inovações e competências”. Trabalhando em diferentes áreas (nanobiotecnologia, biofotônica e radioisótopos), quais as inovações que cientistas com importantes colaborações internacionais como você trazem para o País? E quais são as principais dificuldades?

Prof. Tedesco: As inovações surgem, na verdade, na aplicação de métodos e técnicas clássicas, ou na combinação das mesmas, visando a solução de novos problemas, ou em uma nova abordagem na intepretação de algumas patologias ou doenças negligenciáveis clássicas. Este tráfego entre várias áreas e domínios do conhecimento, sempre auxiliado por uma rede de cooperação com especialistas como químicos, biólogos, físicos, cientistas sociais, engenheiros de matérias, bioinformatas, farmacêuticos, médicos, permitiu ao longo destes anos de trabalho construir uma linguagem comum, e hoje conseguimos buscar soluções que possam ser abrangentes, cada um na sua área de expertise, mas com um foco comum. Nos estudos que iniciamos há muito tempo atrás utilizando a irradiação não-ionizante, como luz visível, par­a tratar as células com câncer, buscamos com biofotônica e nanotecnologia desenvolver uma ferramenta de vetorização do ativo ou, melhor, fotoativos alvos-específicos para cura do câncer.  Na evolução desses conhecimentos, expandimos para uma nova área, a modulação da resposta celular com base nos mesmos princípios, porém readequados a estes propósitos. Hoje, conseguimos modular a reposta celular, na regeneração de tecidos e órgãos. O grande desafio e principal dificuldade que encontrei, e ainda encontro, é a luta constante em transferir a tecnologia daquilo que desenvolvemos, para o dia a dia, transformando-a em política pública de saúde. Esta tarefa não é fácil e, por mais que as agências de inovação atuem e tentem fazer a ponte entre a iniciativa privada ou pública, estamos muito distantes de um percentual mínimo de transferência de tecnologia aceitável. Nesta etapa, surge a maior frustação de quem busca inovar para integrar e trabalha por anos em cima de uma ideia, mas acaba vendo suas ideias serem protegidas porque as mesmas ficaram eternamente confinadas em uma malha burocrática muito distante do acesso daqueles que realmente poderiam se beneficiar destes avanços. Esta é a realidade da maioria das inovações produzias em nosso País, infelizmente.

SBBNews: Em relação às radiações ionizantes, você acha que se trata de uma ferramenta de pesquisa e uma alternativa igual às demais tecnologias? Se possível dê uma visão crítica sobre radiações ionizantes versus radiações não ionizantes?

 Prof. Tedesco: As radiações ionizantes são uma ferramenta poderosa, podendo ser usada para abordagem de vários problemas na área da saúde púbica e desencadear respostas biológicas diferenciadas de sua parceria não-ionizante. Porém, mesmo com a popularização do seu uso, ainda é uma técnica que tem forte regulamentação e não poderia ser diferente, exigindo locais adequados e treinamento dos trabalhadores. Diferente das radiações não-ionizantes, as quais tem quantidades de energias mais discretas de maior facilidade de manuseio pelo cientista, as radiações ionizantes não estão sempre disponíveis. Ondas eletromagnéticas como luz, calor e ondas de rádio (formas comuns de radiações não-ionizantes) são mais facilmente perceptíveis, e próximas do cotidiano. Já as radiações ionizantes, com altos níveis de energia, originadas do núcleo de átomos, podem alterar o estado físico de um átomo e oferecem uma gama e oportunidade de interação com o sistema biológico mais pronunciado com mudanças muita mais drásticas. Outra dificuldade para o uso das radiações ionizantes é que boa parte dos radioisótopos deve ficar separada, embora hoje ocorra a popularização das estruturas de pesquisa “core-facilites” e aceleradores, expandindo a possibilidade de usar radiação ionizantes nos estudos científicos.

SBBNews: Qual sua opinião sobre o monopólio da União sobre a produção de radiofármacos de meia-vida física superior a duas horas. Pode dificultar a pesquisa, apesar da competência dos grupos envolvidos?

 Prof. Tedesco: Sim, este controle, que é necessário porque assegura que tais ferramentas e materiais são usadas por pessoas bem treinadas e aptas a tal manipulação e em ambiente apropriado, transforma-se num obstáculo, que dificulta o avanço do uso das técnicas e centraliza de forma inapropriada a distribuição dos mesmos, impedindo o desenvolvimento de novos medicamentos ou produtos. Qualquer controle, ou agência de controle, que impeça o fluxo normal de evolução da pesquisa e avanços científicos, respaldada em uma legislação antiga como a nossa, impede o crescimento e fortalecimento de grupos de pesquisa com competência igual e comprovada a outros grupos no exterior, nos colocando em desvantagem. Veja agências reguladoras como ANVISA e INPI, que mesmo “modernizadas”, nos deixam anos-luz atrás de qualquer país que imagina fazer algo inovador dentro do atual cenário mundial. É um absurdo que uma análise de propriedade intelectual de um produto ou processo inovador demore de 12 a 15 anos para ser avaliada e aprovada.

SBBNews: Por outro lado, se as empresas privadas entrassem neste mercado, será que fariam pesquisas com e para os brasileiros?  Qual a sua opinião, uma vez que já teve a experiência de tentar introduzir no mercado brasileiro um produto farmacêutico?

Prof. Tedesco: As empresas brasileiras, na sua grande maioria, (deve existir alguma que se comporte de forma diferente, mas eu, infelizmente, até hoje não tive a sorte de encontrá-la), começa com um tímido namoro, e um grande interesse. Com o andar do processo, percebem que o custo BRASIL das coisas, não justifica o investimento, e que a caminhada até o produto final no mercado, vai demorar uma eternidade. Se não te abandonam no começo, o fazem no meio do caminho. Se realmente, as empresas particulares transformassem todo o conhecimento inovador em produto e efetivamente o transferissem ao nosso mercado, de modo que o “novo” pudesse chegar a quem efetivamente investiu nisso durante anos esperando ter algo diferenciado a seu favor, ou seja a nossa população, nossa política pública de saúde, não seria problema algum as empresar buscarem nos mercados competitivos internacionais, ou mesmo nacional, o retorno esperado e nosso país se consolidaria como um centro gerador de inovação como muitos outros.

SBBNews: Por último, poderia falar sobre suas pesquisas envolvendo nanobiotecnologia com radiações e como esta integração de áreas favorece a descoberta ou “delivery” de fármacos?

Prof. Tedesco: Acho difícil nos dias de hoje falar em Nanotecnologia sem associarmos imediatamente a mesma ao conceito de “delivery”, ou entrega direcionada, pois dentre todas as áreas das Nanociências, talvez esta seja a que mais se destaque e que tem uma repercussão mediática mais imediata. Mas não por simples mídia, mas porque realmente foi uma revolução e, principalmente, na área da saúde, permitiu nas últimas décadas o surgimento e a redescoberta, – como gosto de falar – de novos e velhos ativos. Interessante, foi poder associar a esta corrente o uso da Luz. Inicialmente com o propósito de matar tecidos cancerosos, fungos e bactérias. e, mais recentemente, na Fotobiomodulação da resposta tecidual, dentro de uma nova temática que é a Medicina Regenerativa. Ou seja, como modelar com a Luz em diferentes comprimentos de onda desde a cicatrização de tecidos até a diferenciação celular de células tronco, em células com especificidades desejadas. E não pára por aí, a cada novo dia, com novas descobertas de novos biomateriais, abre-se uma infinidade de oportunidade de criar e integrar, luz, nanomateriais, novos protocolos e procedimentos para tentar atuar em terapias já consagradas como, por exemplo, para doenças que nos últimos anos começaram a afetar mais a saúde das pessoas, como as doenças do sistema nervoso central, doenças cardiovasculares, e muitas outras. Espero poder continuar a trabalhar usando a biofotônica no processo de tratamento do câncer, mas também definir seu uso na Fotobiomodulação dentro da Medina Regenerativa. Quero avançar na engenharia tecidual, de órgãos, não apenas a pele, mas também, vasos, cartilagens e órgãos de cavidade. Avançar nos estudos das doenças neurodegenrativas, seja na veiculação mais alvo especifica via barreira hematoencefálica de drogas clássicas, seja utilizando fármacos fotoativáveis interferindo no processo de proliferação das mesmas, estamos atuando diretamente no processo.